Notícias e Artigos

Instituto Escolas Criativas inaugura grupo de trabalho para desenvolver estratégias criativas de uso da inteligência artificial na educação

18 de junho de 2025 Inteligência Artificial

Qual é o lugar da inteligência artificial em uma escola comprometida com autoria, território e experimentação?

São Paulo, Brasil – Essa foi a provocação que conduziu o webinário inaugural do grupo de trabalho Aprendendo sobre a IA com a IA, uma iniciativa do Instituto Escolas Criativas em parceria com a Lenovo. Com o tema O uso criativo da IA no planejamento de aulas, sequenciadas e projetos, o encontro marcou o início de uma jornada que se estenderá ao longo de 2025, com uma série de encontros, testes e reflexões sobre o papel da inteligência artificial no cotidiano pedagógico.

A abertura foi conduzida por Verônica, diretora de implementação do Instituto, que reafirmou a aprendizagem criativa como horizonte. Em quatro anos de atuação, o Instituto impactou mais de 1 milhão de estudantes e cerca de 60 mil professores em 16 redes públicas de ensino, abrangendo todas as regiões do Brasil.

Com mediação de Elaine Rocha, doutora em Educação pela USP e consultora especialista em computação criativa no Instituto Escolas Criativas, o debate contou com a participação de André Santana, doutor pela Poli-USP, professor no Insper e pesquisador em inteligência artificial e visão computacional, e de Daniela Lyra Cardoso, pedagoga e especialista em educação online e design instrucional, com ampla experiência na criação de ambientes de aprendizagem humanizados.

O que a IA realmente sabe (ou não sabe) sobre aprender?

André Santana apresentou as diferenças fundamentais entre a inteligência artificial tradicional (focada no reconhecimento de padrões) e a IA generativa (capaz de produzir textos, imagens e códigos com base em vastos bancos de dados humanos). Uma distinção essencial: sistemas como o ChatGPT produzem previsões linguísticas baseadas em probabilidade e semelhança textual, e não em intencionalidade ou entendimento genuíno.

Essa limitação técnica traz implicações pedagógicas profundas. Quando confundimos fluência linguística com conhecimento real, corremos o risco de aceitar como verdadeiras informações que podem estar fundamentalmente equivocadas, ainda que pareçam convincentes.

O que acontece quando confundimos previsão com conhecimento?

Essa dissociação entre linguagem e sentido explica os casos de alucinações, respostas que soam coerentes, mas estão completamente erradas. Mais preocupante ainda: essas ferramentas podem reforçar estereótipos de gênero, classe e etnia, além de privilegiar perspectivas do Norte Global em detrimento das epistemologias locais.

“A IA não é neutra”, alertou André. Os algoritmos carregam, inevitavelmente, os vieses de quem os desenvolve, dos contextos de origem e dos dados utilizados no treinamento. Quando aplicada à educação sem criticidade, a IA pode amplificar desigualdades sob o verniz da eficiência e da modernidade.

Estamos usando a IA para criar ou apenas para repetir?

A discussão avançou com os perfis de uso identificados por Dell’Acqua et al. (2023), em estudo da Harvard Business School, que descreve dois arquétipos emergentes: os centauros, que compartilham tarefas com a IA, e os ciborgues, que se fundem completamente às suas lógicas operacionais. Embora ambos possam ampliar a produtividade, acende-se um alerta sobre a homogeneização criativa.

Quando todos usam as mesmas ferramentas, com os mesmos prompts, para resolver os mesmos problemas, o resultado tende à convergência: ideias recicladas, soluções repetidas e uma preocupante redução da diversidade cultural e inventiva.

Daniela Lyra apontou um risco ainda mais sutil: a exclusão sistemática do erro. Ao oferecer respostas “certas” e imediatas, a IA pode silenciar elementos essenciais da aprendizagem – a dúvida produtiva, a experimentação, o improviso criativo, a frustração como motor de crescimento. Como desenvolver resiliência e pensamento crítico se os obstáculos são sistematicamente removidos?

Como proteger os 4 Ps da aprendizagem criativa em tempos de automação?

O grupo revisitou os 4 Ps formulados por Mitchel Resnick no MIT Media Lab, destacando oportunidades e armadilhas:

  • Projetos: A IA não deve oferecer soluções prontas, mas funcionar como trampolim para criações verdadeiramente autorais. O desafio é usá-la para abrir caminhos, não para encerrá-los com respostas definitivas.
  • Paixão: É fundamental garantir que a produção assistida por IA não elimine o envolvimento afetivo e cognitivo do estudante. Como manter viva a curiosidade se tudo chega instantaneamente?
  • Pares: A tecnologia deve fortalecer, jamais romper, as redes de escuta, troca e cocriação. Uma ferramenta que promete conectar pode, paradoxalmente, isolar.
  • Pensar brincando: O erro, o remix, o jogo e a experimentação continuam sendo estratégias essenciais. Como preservar o lúdico diante da lógica da eficiência?

O debate também nos lembra que a  IA não é apenas uma ferramenta técnica; é também um artefato cultural que influencia identidades, valores e relações de poder. Trata-se de um campo de disputa simbólica que exige posicionamento ético e epistemológico.

Como conversar com uma máquina sem perder a autoria?

A resposta está na sofisticação do que André definiu como a arte de dialogar com a máquina. As estratégias de prompt engineering envolvem a formulação de instruções específicas, contextualização clara, definição de papéis, segmentação de tarefas e, sobretudo, objetivos pedagógicos bem delineados.

Daniela compartilhou experiências práticas com o uso da IA em projetos interdisciplinares, como o “Museu das Máquinas do Cotidiano”, demonstrando como a ferramenta pode ser catalisadora de ideias sem substituir a criatividade humana. Ambos reforçaram: o diferencial está na leitura crítica e na curadoria ativa por parte do educador.

Se a IA apenas simula dados, quem produz sentido?

Elaine e Verônica encerraram o encontro com uma provocação central: como ativar a criatividade humana para qualificar e ressignificar aquilo que é gerado pela inteligência artificial.

O próximo webinário acontece em 27 de agosto e terá como foco o uso ético, responsável e sustentável da IA, alinhado aos princípios da aprendizagem criativa. Aberto ao público, o evento convida educadores, redes de ensino e pesquisadores a ampliar a conversa sobre inteligência artificial.

Afinal, a questão não é apenas o que a inteligência artificial pode fazer pela escola, mas o que a escola deseja, de fato, fazer com a inteligência artificial.

REFERÊNCIAS

INSTITUTO ESCOLAS CRIATIVAS. GT Aprendendo sobre a IA com a IA – Webinário Inaugural: O uso criativo da IA no planejamento de aulas, sequências e projetos. YouTube, 2025. Disponível em: https://www.youtube.com/live/U8xNLGAM5ug?si=_Jyoi64ydxRAzGra. Acesso em: 9 jun. 2025.

DELL’ACQUA, F. et al. Navigating the jagged frontier: Field experimental evidence of the effects of AI on knowledge worker productivity and quality. Harvard Business School Working Paper, 2023.

RESNICK, M. Lifelong Kindergarten: Cultivating Creativity through Projects, Passion, Peers, and Play. Cambridge: MIT Press, 2017.

PAPERT, S. Mindstorms: Children, Computers, and Powerful Ideas. New York: Basic Books, 1980.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.