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Quando a matemática faz sentido o engajamento acontece

30 de junho de 2026 Pelas lentes da Aprendizagem Criativa

“Não sou bom em Matemática.” “Não gosto de Matemática.” Repetidas por estudantes brasileiros de diferentes idades, frases como estas revelam mais do que uma dificuldade de aprendizagem ou uma falta de preferência pela disciplina. Elas expõem uma ausência de reconhecimento com o espaço escolar e uma sensação de distanciamento em relação a uma área do conhecimento que, historicamente, ajudou a definir quem é considerado capaz ou não dentro da escola. 

Esse sentimento também se reflete nos índices de aprendizagem. A Matemática não é apenas uma dificuldade enfrentada pelo João, do Espírito Santo, ou pela Maria, de Florianópolis, ela é um desafio para o país todo. Dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2023, mostram que apenas 48,8% dos estudantes do 5º ano atingem níveis adequados de proficiência em Matemática. No 9º ano, esse percentual cai para 21%, e chega a apenas 8% ao final do Ensino Médio.

Mas, para além dos números, há uma questão menos visível: quantos desses alunos deixam de aprender porque, em algum momento, passaram a acreditar que a Matemática não era para eles?

Diante desse contexto, experiências inspiradas na Aprendizagem Criativa propõem uma mudança de perspectiva: em vez de apenas buscar respostas corretas, os alunos são convidados a criar, investigar e colaborar. E, nesse processo de engajamento, começam a descobrir que a Matemática também pode ser um lugar onde se sentem pertencentes.

Em visita ao Brasil no ano passado, a pesquisadora britânica da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos e autora dos livros “Mentalidades Matemáticas” e do recém-lançado “Matematicando – Encontrando criatividade, diversidade e significado na matemática”, Jo Boaler reforçou essa tese ao defender uma mudança radical no ensino da disciplina. 

Para ela, é preciso romper com a lógica da memorização e tratar a matemática como uma área conceitual, aberta à investigação, à criatividade e à conexão com o mundo real. “Matemática precisa ser espaço de criatividade, não de memorização”, disse, em entrevista ao Porvir (confira reportagem completa aqui).

Quando a ‘vilã’ se torna oportunidade de engajamento

E o que acontece quando a Matemática deixa de ser um lugar onde alguns alunos se sentem incapazes e passa a ser um espaço onde todos podem criar, experimentar e contribuir?

Nas redes públicas em que o Instituto Escolas Criativas atua como parceiro há incontáveis exemplos. Números, fórmulas e raciocínios matemáticos saem do abstrato e ganham concretude em atividades mão na massa, com criação de jogos, mapas, brinquedos, programações no Scratch e tantas outras oportunidades possíveis levando em conta as especificidades de cada um dos territórios. Mesmo nas cidades onde o acesso aos recursos tecnológicos é mais restrito, o ensino que prioriza a ludicidade, garantindo engajamento e pertencimento é possível. 

A Aprendizagem Criativa valoriza o processo, não apenas as respostas certas, legitima a colaboração e transforma o erro em parte da aprendizagem – além de tornar a escola mais divertida! Ela quebra a lógica de fazer com que o professor pergunte na sala de aula “quem acertou a resposta?” para “o que você pensou para chegar até lá?” Essa mudança é muito potente. 

Na primeira edição do “Pelas lentes da Aprendizagem Criativa” (se você não leu ainda, volte aqui), abordamos a importância do protagonismo estudantil dentro do processo de ensino e aprendizagem. Nesta perspectiva, a Matemática se torna um dos campos em que seus efeitos podem ser percebidos com mais clareza. 

Se na aula tradicional é esperado que o aluno aprenda o conteúdo para participar, a proposta é que a lógica se inverta: ele participa para aprender. Mesmo sem dominar plenamente um conteúdo, é possível pensar sobre ele, mobilizar conhecimentos prévios e relacionáveis, dividir as dúvidas e apostas, e colaborar com o raciocínio dos colegas. Nessa troca, o conhecimento se constrói. Além disso, quando o estudante percebe que consegue contribuir, errar, criar e resolver problemas, ele internaliza algo pela qual o Instituto Escolas Criativas (IEC) batalha muito: ele sente que pertence à escola. 

O desafio da formação de professores

Garantir o engajamento por meio da Matemática pode ser um desafio para os professores que tiveram uma formação mais cartesiana. Por isso, um dos pilares de atuação do IEC é o desenvolvimento profissional e de ferramentas pedagógicas. Capacitamos educadores para o desenvolvimento de experiências de aprendizagem que incentivem o protagonismo estudantil e apostamos em uma estratégia formativa que passa pela sensibilização, aprofundamento e design, promovendo experimentação e troca entre  pares. 

Algo que esses profissionais almejam, como mostrou os resultados da Escuta Nacional dos Professores e Professoras que Ensinam Matemática, levantamento, conduzido pelo Ministério da Educação, que ouviu mais de 57 mil docentes. De acordo com a pesquisa, 80% dos professores manifestaram interesse em formações mais práticas, com oficinas e atividades aplicáveis ao cotidiano da sala de aula. Outro dado é que 99% acreditam que a matemática exige pensamento criativo. Nesse sentido, investir na homologia de processos, proporcionando aos professores as mesmas experiências que queremos ver com estudantes, é apostar na transformação da prática docente e na mudança do cenário atual.

Esta é a segunda reportagem de uma série que será publicada no nosso blog até dezembro de 2026. Todos os meses, vamos trazer reflexões sobre temas atuais do mundo da educação que estão relacionados à atuação e missão do Instituto Escolas Criativas.